Festa da Lanterna: o que uma tradição das escolas Waldorf pode nos ensinar sobre os desafios do nosso tempo

3–4 minutos

Recentemente participei de mais uma Festa da Lanterna na escola dos meus filhos.

Pra quem não conhece, é um passeio em que as crianças caminham pela noite carregando lanternas feitas por elas mesmas, iluminadas por pequenas velas. E sim, até mesmo as crianças bem pequenas carregam uma chama verdadeira em suas mãos.

Ao mesmo tempo, uma grande fogueira é acendida pelos familiares e ilumina o centro da roda.

Sempre me emociono com essa imagem.

Talvez porque, por trás da simplicidade do ritual, exista algo profundamente simbólico.

De um lado, pequenas chamas individuais.

Do outro, um grande fogo coletivo.

E toda vez que observo essa cena, fico pensando no quanto ela diz respeito ao momento histórico que vivemos.

O desafio de encontrar a própria luz

Ao longo da história da humanidade, as pessoas encontravam orientação principalmente em tradições, religiões, costumes e autoridades externas.

Hoje, cada vez mais, somos chamados a desenvolver nossa própria capacidade de discernimento.

Precisamos formar opiniões. Tomar decisões. Encontrar sentido. Descobrir quem somos.

Não porque alguém nos diga qual caminho seguir, mas porque somos convidados a construí-lo a partir da nossa própria consciência individual.

Na Antroposofia, esse período da humanidade é chamado de época da Alma da Consciência.

Trata-se de um período em que somos chamados a desenvolver uma relação mais consciente com a vida, aprendendo a pensar por nós mesmos, a formar nossos próprios julgamentos e a assumir responsabilidade pelas escolhas que fazemos. É o florescimento da individualidade, mas também o desafio de colocá-la a serviço do mundo.

Mas toda conquista traz seus desafios…

Individualidade não é individualismo

Se por um lado somos chamados a encontrar nossa própria voz, por outro corremos o risco de nos afastar dos outros.

Nunca tivemos tantas possibilidades de expressão individual.

E, paradoxalmente, nunca falamos tanto sobre solidão, polarização e dificuldade de convivência.

Talvez uma das grandes perguntas do nosso tempo seja:

Como desenvolver a individualidade sem cair no individualismo?

Como sustentar nossas convicções sem perder a capacidade de escutar?

Como afirmar quem somos sem romper os laços que nos unem aos outros?

São perguntas para as quais não tenho respostas prontas. Mas a Festa da Lanterna me oferece uma imagem.

Pequenas chamas e um grande fogo

Na festa, cada criança cuida da própria lanterna.

Protege sua chama. Caminha com ela.

Ao mesmo tempo, todas se reúnem ao redor da fogueira.

Ninguém precisa apagar sua luz para participar do fogo coletivo.

E o fogo coletivo não existe sem a presença das pequenas luzes individuais.

Talvez essa seja uma das imagens mais bonitas para compreendermos os desafios da nossa época.

Não se trata de escolher entre o indivíduo e o coletivo.

Não se trata de dissolver a individualidade em nome do grupo.

Nem de colocar o eu acima de tudo.

Trata-se de aprender a sustentar ambos.

Uma imagem para levar para a vida

Muitas vezes pensamos que as festas escolares são apenas momentos bonitos da infância. Mas algumas delas carregam sabedorias que ultrapassam a infância. A Festa da Lanterna é uma delas.

Ela nos recorda que cada ser humano possui uma luz única que precisa ser cultivada. Mas também nos lembra que essa luz encontra seu sentido mais profundo quando ilumina o caminho ao lado de outras luzes.

Talvez uma das tarefas mais importantes do nosso tempo seja justamente esta:

Aprender a sustentar a nossa própria chama sem nos afastarmos do fogo coletivo.

E talvez seja por isso que, todos os anos, ao ver aquelas pequenas lanternas caminhando pela noite, eu me emocione.

Porque, de alguma forma, elas parecem iluminar não apenas o caminho das crianças.

Elas iluminam também uma pergunta fundamental para todos nós.

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